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Archive for the ‘Pitaco deles’ Category

CONSERVADORES AVESTRUZES

Ótimo texto de Mike Stucin, publicado em seu blog, Blog do Mike.

Vale a pena ler não só esse mas como os outros textos dele. Coloca-se muito bem sobre questões polêmicas.

“É engraçado ver como a sociedade se coloca diante das grandes questões polêmicas e dos problemas por ela enfrentados. Mais engraçado ainda é ver como setores da sociedade acreditam que tudo possa se resolver com um simples passe de mágica legislativa, proibindo tudo o que puderem, sem maiores discussões. Claramente, refiro-me às pessoas conservadoras.

Para uma pessoa progressista, é difícil entender como a cabeça de um conservador funciona. A melhor explicação que eu tenho é que pessoas conservadoras agem como avestruzes, já que, quando se deparam com problemas ou questões polêmicas, em vez de debatê-los para depois tentar resolvê-los, eles decidem enfiar as suas cabeças confusas no cômodo e protegido solo da proibição, do egoísmo e da indiferença.

Pessoas conservadoras, na verdade, nunca estiveram preocupadas em resolver problemas, elas apenas querem ficar longe desses problemas, afinal, o que os olhos não veem, o coração não sente.

Imagino que se você chegou a ler este parágrafo, ou você é um progressista, ou você é um conservador cuja curiosidade é maior do que o ódio ou pena que você deve estar sentindo de mim neste momento. Aliás, obrigado por ler esse texto! Agora, vamos à demonstração dos fatos.

Nada como comprovar a minha tese de que conservadores agem como avestruzes entrando no polêmico tema do aborto. Ah, o aborto! Vejam, eu não quero entrar no aspecto religioso da questão, pois reconheço que, se o aborto for tomado apenas em seu conceito teórico, realmente é algo discutível.  Eu quero falar da eficácia e utilidade da proibição do aborto no Brasil.

Recente pesquisa divulgada na revista The Lancet http://migre.me/7FiUz demonstra que a incidência de abortos é maior nos países que os proibiram, e não, por incrível que possa parecer, naqueles que os legalizaram.

Além do número maior de abortos, as mães que os praticam estão mais vulneráveis a complicações decorrentes desses procedimentos, já que feitos sob o manto da clandestinidade. Ou seja, proibir o aborto não garante um menor número dessas ocorrências, além de pôr em risco as vidas das mulheres que o fazem de forma clandestina.

Como isso pode ser possível?! O x da questão está na clandestinidade! Os países que legalizaram o aborto puderam enfrentar esse problema como um caso de saúde pública, dando assistência às mulheres, orientando-as e, enfim, efetuando o procedimento num hospital, e não nas tão famosas “bocas-de-porco”, encontradas aqui no Brasil, por exemplo.

É algo muito raso também afirmar que haveria um boom de abortos, caso fossem legalizados, afinal, uma mulher grávida não acorda um belo dia e diz: “Acho que hoje tô a fim de um aborto”. É a mesma coisa de pensar que haveria mais gays no mundo se eles pudessem contrair matrimônio civil. Imaginem: “Ah, agora que eu posso casar, vou virar gay”. Não faz sentido, né?!

Enfim, voltando ao aborto. Pesquisas mostram que a proibição do aborto não implica na redução de sua ocorrência, além de todos os perigos decorrentes às mães por conta da clandestinidade das cirurgias.

Sendo assim, você continuaria contrário ao aborto, mesmo que a sua legalização implicasse na sua redução, como demonstram as pesquisas?! Essa proibição faz algum sentido?! Nesse caso, a proibição não resolve nem diminui o problema. Contudo, uma pessoa conservadora, agindo como um avestruz, prefere enterrar a sua cabeça no cômodo e protegido solo da proibição a enxergar os fatos.

Esse foi o primeiro exemplo para demonstrar a minha teoria de que conservadores agem como avestruzes. Vamos à outra grande polêmica: os casamentos homossexuais.

A proibição de contrair casamento, por parte de pessoas do mesmo sexo, talvez seja a maior prova de que o princípio da igualdade de todos perante a lei é uma piada, e que o Brasil não é uma democracia, mas uma ditadura de uma maioria branca, religiosa e heterossexual.

Os conservadores temem um boom de gays, caso tais casamentos fossem regulamentados, como se a definição da orientação sexual de uma pessoa dependesse de um artigo de lei que proíba ou não as tais uniões civis. Engraçado, não é?!

Enfim, proibir as pessoas do mesmo sexo de contrair matrimônio não implicará em redução ou aumento do número de homossexuais, como se esse fosse um problema. Se o tal livro sagrado estiver certo, eles certamente queimarão no inferno, assim como os ateus, mas até esse dia não chegar, eles deveriam ter os mesmos direitos da maioria.

Contudo, os conservadores, mais uma vez, preferem enterrar as suas cabeças no cômodo e, neste caso, sagrado solo da proibição divina, ao invés de pensar que casais homossexuais também enfrentam problemas relacionados à guarda de filhos, divisão do patrimônio conjunto, imposto de renda, direito à pensão por morte e herança, assim como os heterossexuais, e, portanto, tal negação de direitos os prejudica muito.

Este outro caso talvez seja o pior de todos, contudo um pouco diferente dos anteriores. Muitos conservadores pertencentes às classes A e B não suportam a pobreza e todos os problemas dela decorrentes. Quando associações de moradores de bairros da elite se dizem preocupadas com o problema da violência, elas não estão preocupadas com as causas desse fenômeno, mas apenas com o seu próprio umbigo. Enfim, contanto que eles estejam a salvo, o problema da violência não lhes diz respeito.

Neste caso, não se trata de uma proibição propriamente dita. Trata-se da mais nojenta indiferença em relação ao maior problema brasileiro e grande causa da violência: a desigualdade social.

Os ricos e a classe política por eles sustentada, na verdade, não estão preocupados em acabar com a desigualdade social ou com a violência; eles apenas a querem bem longe dos seus lindos bairros que lembram a Europa ou Beverly Hills. Eles não querem tentar resolver ou diminuir a miséria que muitas vezes os circunda, eles apenas querem um Chuck Norris que os defenda, para, dessa maneira, poderem enfiar a cabeça no cômodo e protegido solo do egoísmo e da indiferença com o próximo. Isso é muito cristão, aliás!

Há muitos outros exemplos, como na proibição do uso de entorpecentes etc., mas se continuar, o texto ficaria muito mais longo do que já está. Antes que alguém se manifeste, devo frisar que nem toda a proibição é inútil ou ruim, afinal, isso seria de uma ingenuidade colossal.

O que se critica nesse texto é o pensamento recorrente das camadas conservadoras da sociedade, que creem piamente na proibição como a melhor maneira de resolver qualquer problema, como no caso do aborto ou das drogas, ou da simples imposição da vontade de uma maioria branca, religiosa e heterossexual, no caso dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, ou da indiferença criminosa à gritante desigualdade social por parte da elite e da classe política.

Afinal, os problemas continuam aí, sem muita solução, enquanto eles estão bem protegidos, com as suas cabeças enfiadas no cômodo e protegido solo da proibição, do egoísmo e da indiferença. Esses são os conservadores!”

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Um pedido a todos

De Blog do Madeira,

Caros, em primeiro lugar quero deixar claro que, neste post, fala o Guilherme Madeira Dezem, professor, mestre e doutorando pela USP. O funcionário público não se encontra neste texto.

Na vida, chega um momento em que precisamos tomar posições.

E não sei se sabem, mas há um forte risco de a Defensoria Pública de São Paulo passar por um enorme revés legislativo. Este revés significa um retrocesso na luta pelos Direitos Humanos e pelo acesso à justiça.

Então, peço que leiam o texto abaixo que é uma nota pública da Defensoria Pública e peço que, em concordando com o pleito, passe a frente e peça para seu deputado que vote contra o Projeto  de Lei.

É chegada a hora de tomar posição.

Por favor, se concorda, se apóia a Defensoria Pública, passe adiante esta nota pública. O Dia é Terça Feira!

NOTA PÚBLICA

06/12/2011

As entidades abaixo assinadas vêm a público manifestar-se veementemente contrárias ao projeto de lei complementar PLC 65/11, em trâmite na ALESP, que pretende transferir a gestão do FAJ – Fundo de Assistência Judiciária da Defensoria Pública para a Secretaria de Justiça e Cidadania do Governo de São Paulo.

A proposta, de iniciativa de parlamentar, além de ignorar o modelo público constitucional de assistência jurídica vigente no país, está repleta de outras inconstitucionalidades: trata-se de vício de iniciativa porque a competência de legislar sobre a Defensoria Pública é do governador do Estado; e material, por afrontar a autonomia institucional, garantida pela emenda constitucional 45, de 2004, e a previsão constitucional de que o Estado deve prestar orientação jurídica por meio da Defensoria Pública, e não pelo Executivo e suas Secretarias.

As entidades subscritas também manifestam alto grau de preocupação com as consequências desta transferência da gestão do FAJ junto à população carente do Estado, destinatária final dos serviços da Defensoria Pública. O FAJ representa hoje cerca de 90% da verba destinada à instituição pelo Executivo Estadual. Na prática, portanto, o modelo proposto pela OAB/SP vai simplesmente inviabilizar a prestação de assistência jurídica gratuita realizada no Estado tanto pela Defensoria quanto pelos advogados dativos.

A Constituição Federal do Brasil, há 23 anos, estabeleceu como dever do Estado garantir a defesa jurídica daqueles que não podem arcar com as custas de um advogado particular. Nos termos da Carta Magna, em seu artigo 5°, LXXIV: “O Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos”. E para efetivar esta prestação de serviço jurisdicional o artigo 134 da Constituição instituiu a Defensoria Pública. No entanto, contrariando a própria história da entidade, a atual diretoria da seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil persiste em caminhar no sentido oposto, colocando interesses corporativos à frente do modelo público de assistência jurídica vigente no país.

No Estado de São Paulo, a Defensoria Pública foi criada em 2006, após 18 anos do comando constitucional e após movimentação popular que envolveu mais de 400 entidades da sociedade civil organizada. Como a assistência jurídica gratuita é um dever público, nos locais onde ainda não há instalações da Defensoria, o Estado, por meio desta, paga advogados inscritos na OAB/SP para atuarem na defesa da população carente. Estes profissionais, que não prestaram concurso público, são remunerados a cada processo ou a cada audiência, por meio de receitas públicas advindas do FAJ, sem qualquer procedimento licitatório por força de lei, cuja constitucionalidade é questionada pela Procuradoria Geral da República e Defensoria Pública junto ao STF (ADIn 4163).

Este modelo, verificado nesta proporção apenas no Estado de São Paulo, constitui um paliativo, claramente inconstitucional, em transição, e altamente oneroso aos cofres públicos, ao bolso do cidadão contribuinte. Para que isso fique mais claro, imaginemos, por exemplo, se o número insuficiente de juízes e promotores no Estado de São Paulo recebesse a mesma tratativa. Para suprir tal lacuna, o Executivo contrataria bacharéis em Direito, sem concurso público, para atuarem como magistrados ou promotores de justiça.

Isso seria plausível? Como a resposta é não, por que para a instituição Defensoria Pública isso pode ser feito?

Enquanto o Estado não conta com o número ideal de defensores públicos para prestação de assistência jurídica gratuita, permanece a necessidade de contratação de advogados dativos. E como pelo ordenamento jurídico vigente cabe à Defensoria gerir o fundo do qual advém verbas para o pagamento de advogados conveniados, à instituição não resta outra alternativa senão zelar pela boa gestão do erário e honrar os deveres estipulados no convênio firmado com a Ordem dos Advogados.

Mas inconformada justamente com esta gestão do convênio realizado pela Defensoria e após ameaçar a interrupção dos serviços prestados pelos advogados dativos, as lideranças da advocacia paulista aprovaram no Colégio de Presidentes de Subseções, em outubro, proposta para esta transferência da gestão do convênio de Assistência Judicial. Em seguida, foi apresentado o projeto de lei 65/11 na Assembléia Legislativa do Estado com o mesmo objetivo.

Em resposta a uma nota divulgada pela OAB/SP, a administração da Defensoria Pública explica os porquês do não pagamento de pequena parcela de certidões aos advogados dativos. Durante processo de análise, “verificou-se que uma parte das certidões apresentava inconsistências e irregularidades, porque preenchidas sem todas as informações necessárias. Houve casos de pedidos de pagamento por situações não previstas nos termos do convênio. Havia também casos de certidões apresentadas em duplicidade”, diz a nota assinada no final de outubro.

Apesar da patente inconstitucionalidade deste projeto de lei, o deputado e advogado Jorge Caruso (PMDB) deu parecer favorável à iniciativa, causando grande perplexidade junto aos defensores públicos.

As entidades abaixo subscritas aguardam agora da Casa Legislativa paulista a manutenção do histórico compromisso com os princípios e regras constitucionais vigentes no país, votando pelo imediato arquivamento do PLC 65/11.

Assinam esta nota pública:

Associação Paulista de Defensores Públicos – APADEP

Associação Nacional de Defensores Públicos – ANADEP

Ouvidoria-Geral da Defensoria Pública do Estado de São Paulo

Movimento Nacional da População de Rua – MNPR

União dos Movimentos de Moradia de São Paulo – UMMSP

Pastoral Carcerária de São Paulo

Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC

Instituto Práxis de Direitos Humanos

Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM

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Ocupação patética, reação tenebrosa

10 de novembro de 2011 Deixe um comentário

Esse artigo reflete muito do que eu penso, melhor deixar vocês lerem do que ficar falando groselha.

De Carta Capital, Matheus Pichonelli:

Ao que tudo indica, a ocupação da reitoria da USP foi de fato patrocinada por um grupo de aloprados, que atropelou o rito das assembleias realizadas até então e, num ato de desespero (calculado?), fez rolar morro abaixo uma pedra que, aos trancos, deveria ser endereçada para pontos mais altos da discussão.

A tropa de choque entra em ação, a sociedade aplaude. Foto: Milton Jung/Flickr

Uma vez que essa pedra rolou, como se viu, tudo desandou. Absolutamente tudo, o que se nota pela declaração do ministro-candidato-a-prefeito (algo como: bater em viciado pode, em estudante, não) e do governador (vamos dar aula de democracia para esses safadinhos), passando pela atitude da própria polícia (tão aplaudida como o caveirão do Bope que arrebenta favelas), de cinegrafistas (ávidos por flagrar os “marginais” de camiseta GAP) e de muitos, mas muitos mesmo, cidadãos que só esperavam o ataque aéreo dos japoneses em Pearl Harbor para, em nome da legalidade, arremessar suas bombas atômicas sobre Hiroshima.

O episódio, em si isolado, é sintomático em vários aspectos. Primeiro porque mostra que, como outros temas-tabus (questão agrária, aborto…), a discussão sobre a rebeldia estudantil é hoje um convite para o enterro do bom senso. O episódio foi, em todos os seus atos, uma demonstração do que o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle chama de pensamento binário do debate nacional – segundo o qual a mente humana, como computadores pré-programados, só suporta a composição “zero” ou “um”. Ou seja: estamos condicionados a um debate que só serve para dividir os argumentos em “a favor” ou “contra”, “aliado” ou “inimigo”.

De um lado, uma minoria de estudantes que, sim, usa a universidade para o que há de pior na vida pública, como politicagem e ignorância sobre noções básicas de convivência; e que, queira ela ou não, atrai uma nuvem de antipatia dentro da comunidade acadêmica e da opinião pública que contamina qualquer avanço ou reivindicação séria, legítima e bem costurada pelos estudantes de fato.

Do outro, uma parcela da opinião pública que jamais suportou qualquer sinal de organização política – seja estudantil, sindical, partidária – e que viu no episódio um pretexto para colocar as garras de fora, cuspir sua raiva e taxar os estudantes, qualquer um que fosse contra a presença da PM no campus, de baderneiro, vagabundo, privilegiado, filhinho de papai, maconheiro e inútil. Porque bater em estudante com o argumento de que não trabalha e, sob as asas dos pais, ainda não sabe como a vida prática é dura é o mais fácil e covarde dos argumentos (como se só os pais de família, que pagam impostos e vão à missa, reunissem as condições necessárias para se graduar em cidadania para reclamar da vida).

Cerca de 500 estudantes protestaram contra a detenção de colegas. Foto: Natália Natarelli

A ocupação da reitoria da maior universidade do País deu munição para que boa parte da opinião pública (inclusive estudantes) testemunhasse, graças à transmissão ao vivo das emissoras, a legitimação de seus desprezos contra estudantes que, diferentemente deles, ainda ousam apontam o dedo para o alto e dizer que alguma coisa está errada.

Originários de uma multidão crescida sob o mito do self made man (“minhas conquistas são fruto do meu próprio trabalho, e o Estado muito ajuda quando não me atrapalha”), muitos usaram canais de manifestação, como as redes sociais, para despejar os argumentos mais covardes contra todo (todo mesmo) universo estudantil, sobretudo o sistema público de ensino, do “bem feito” ao “viva a legalidade”. Como se os ritos democráticos tivessem sido respeitados desde o começo, quando o então governador José Serra (PSDB) decidiu justamente desprezar a vontade da comunidade acadêmica e nomear João Grandino Rodas, o segundo candidato mais votado, para o cargo. Como se fosse legítimo, também, determinar, de cima para baixo, que a Polícia Militar transferisse para o campus o seu modus operandi. Hoje a bronca, gota d’água de toda a crise, foi por não se poder fumar maconha em paz – sim, é uma discussão menor num país de tantos problemas; sim, pode revelar um desnecessário privilégio a um grupo que não é inimputável; mas sim (e é bom lembrar), existe, e não só na comunidade estudantil, uma questão em torno da descriminalização da droga, que é aceita inclusive em marchas na Paulista.

A praça do relógio, símbolo da cidade universitária. Foto: Vismar R

Mas, em meio às manifestações contrárias aos invasores (que, sim, sabem o que fazem e não poderia descumprir decisão judicial), o que mais estranha não é ver senhores engravatados, os tais cidadãos que trabalham e pagam impostos, pedindo punição exemplar aos “aloprados”. Estes estão preocupados demais em manter o estado das coisas exatamente como está: assim como a polícia é útil na saída da favela, é útil também que ela tome conta de qualquer, mas qualquer mesmo, insurgência estudantil. Para a reitoria, o governador e os empresários que querem se apropriar do espaço público para obter lucros privados, parece mais que óbvio o interesse em deslegitimar não só ocupações estapafúrdias, como foi o caso, mas também esmagar a voz, quiçá para sempre, do movimento estudantil. (“Já pensou se eles, como os sem-terra, em vez de se dividir, resolvem se unir para ir às ruas, pedir condições melhores de vida e de trabalho e, mais tarde, entram no mercado do trabalho já contaminados com ideias subversivas, entre elas a de que a vida não se resume a dinheiro?”).

Força Tática em frente a reitoria. Foto: Milton Jung/Flickr

O que é estranho dessas reações todas de ojeriza aos uspianos é que elas partem de quem muito cedo na vida já se apropriou do discurso dos pais, criados num clima de “Brasil: Ame-o ou Deixo-o” herdado do regime militar; e que, portanto, veem na obediência, no não-engajamento, na docilidade, na adaptação a um mundo já pronto o único caminho possível para salvar as próprias peles em um jogo arbitrário de saída. Tenho, para isso, uma tese de botequim: a de que minha geração, nascida em meados dos anos 80 e criada nos 90, foi o maior baby boom de bundões que o Brasil já testemunhou; crescemos com medo da violência, das doenças sexualmente transmissíveis e do outro (do favelado ao muçulmano) e, por este motivo, decidimos nos enclausurar em bolsões de segurança (o shopping, a escola particular e os condomínios fechados) para poder nascer e morrer em paz, sem grandes objetivos na vida a não ser aceitá-la. Por isso aceitamos abrir mão de uma relativa liberdade (porque ela nunca é absoluta) para viver em segurança. E se amanhã algum policial resolver matar algum suspeito (ela chama de “meliante”) entre uma aula e outra na FFLCH ou na FEA, paciência, bola pra frente. Faz parte do jogo. Em nome da segurança, aceitamos a diferença de forças em jogo: estudante, quando alopra, compra cerveja e depreda a reitoria; policial, quando alopra, atira. (Em tempo: nem todos os policiais abusam, como nem todos os estudantes invadem; mas a diferença dos estragos proporcionados entre os que, por lei, detêm o monopólio da violência e os que não o detêm é abissal).

O caso de um aluno da faculdade de ciências sociais – curso visto por parte da elite paulista como ponto de irradiação de tumulto tal qual uma ogiva de Mahmoud Ahmadinejad – exemplifica a situação criada com a simples presença da PM no campus: em menos de um ano, já foi abordado cinco vezes por policiais. Suspeito de quê não se sabe, e não está cientificamente provada se há perseguição pelo fato de ser negro, mas uma amiga dele, branca, relata: já ouviu de um policial que poderia ser liberada porque não tinha o “perfil” de marginal.

Policiais prendem estudantes que ocupavam reitoria da USP. Foto: Milton Jung/Flickr

Uns aceitam a situação. Outros, pelos métodos certos ou não, resolveram deixar claro que não aceitam. Tudo isso me leva a dizer que eu nutria uma simpatia, ainda que leve, levíssima, aos ingênuos invasores que erraram a hora pensando que faziam história – até começarem a agredir os repórteres que estavam lá para ouvi-los. Mesmo assim, ainda parecem ser mais interessantes do que os coxinhas que, vestidos como os pais, esquecem que um dia foram estudantes e que um dia também pensaram que poderiam mudar o mundo. Hoje, engolem lama, agradecem quando lhe chutam as cabeças e dormem pensando ser coerentes aos seus princípios. Ou, como na música, “caminham para a morte pensando em vencer na vida”.

Critique-se o quanto quiser a partidarização de parte do movimento, mas são os estudantes os agentes de uma história que ainda somam coragem e disposição para se organizar e promover discussões e manifestações que, via de regra, apontam caminhos não observáveis por quem, a olhos nus, está atolado nas funções diárias da divisão social do trabalho. O empregado tem medo da greve e de perder o emprego; o patrão tem medo de perder o lucro; o governador, o medo de perder poder. Mas os estudantes estão, em tese, livres das amarras que os impediriam de simplesmente optar por outros caminhos. Isso não deveria ser vergonhoso, nem apontado como privilégio.

O fato é que o rótulo (e a imagem do invasor vestindo GAP) pegou bem aos que tem alergia a organizações sociais. Legalidade, insegurança, hipocrisia, racismo, perseguição (ou mania de), erros táticos, partidarização, elitização do ensino, espetacularização da notícia, truculência, tensão…São muitos os ingredientes que fazem do confronto entre estudantes e reitoria/governo paulista um tema complexo, que não poderia jamais descambar para o Fla-Flu. Mas descambou, graças à ação desastrada de um grupo que, agora, se coloca como “perseguidos políticos” – e virou tema de piada, ou pólvora pura, para um galão de gasolina reservado por quem nunca deu a mínima para ideias como coletividade, bom senso e democracia.

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Visão de uma estudante da USP

Achei bem interessante a nota da Nathalia Safo sobre o ocorrido na USP, portanto resolvi publicar.

Se vc não fala mais que a boca, não perca seu tempo lendo isso. Pra quem tá falando mais que a boca, vou dividir as coisas, já que vcs que falam mais que a boca gostam de dividir tudo.

1 – existem policiais filhos da puta que têm problema de autoridade e gostam de ser violentos.

2 – existem policiais competentes que se diferem destes acima citados.

3 – existem estudantes da USP que acham que PM no campus é sinônimo de segurança.

4 – existem estudantes que acham que PM no campus não é sinônimo de segurança e querem outras alternativas para melhorar a segurança pq ela é um lixo.

A assembleia do dia 1 votou pela desocupação do prédio da FFLCH, propondo eventos, discussões e atos referentes à presença da PM no campus. Os alunos do item 4 sugeriram melhoras na iluminação, demanda de circulares, etc, etc, etc. Isso seria discutido em novas assembleias porque a VOTAÇÃO da ASSEMBLEIA determinou isto: DESOCUPAÇÃO DO PRÉDIO PARA REALIZAÇÃO DE OUTROS ATOS PARA A RETIRADA DA PM DO CAMPUS MAS INVESTIMENTO NA MELHORIA DA SEGURANÇA POR OUTROS MEIOS.

ALGUNS ALUNOS, que os que falam mais que a boca estão chamando de “esquerdistas fanáticos” “da época da ditadura” etc, etc, mesmo tendo perdido na votação, foram ocupar o prédio da reitoria, ato que NÃO FOI PREVISTO NA ASSEMBLEIA.

Eu, como estudante que NÃO QUER a PM no campus, porque SEI que PM NÃO É SINÔNIMO DE SEGURANÇA, não estou sendo representada por estes alunos que ocuparam a reitoria. Logo, EU não sou uma esquerdista revolucionária fanática.

Desta forma, aos que falam mais que a boca e gostam de ficar opinando sobre absolutamente tudo, a VEJA deve estar dando uma boa leitura pra vcs, mas as coisas não são preto no branco, gente. Por favor, tenham consciência ao receber informações e não achem que toda farinha vem do mesmo saco.

Isso vale pra quem acha que todo PM é violento, também. Pra quem acha que quem fuma maconha não estuda, pra quem acha que presença de PM é garantia de segurança, pra quem acha que uma coisa é automaticamente outra coisa só porque parece.

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Mais uma guerra para aliviar crises?

3 de novembro de 2011 Deixe um comentário

Artigo de Tijolaço:

O jornal inglês The Guardiananuncia hoje que existe uma escalada para preparar um ataque militar ao Irã. A Inglaterra estaria se preparando para atuar como ponta-de-lança de uma ofensiva norteamericana sobre o país. Segundo o jornal, o motivo alegado seria o relatório da Agência Internacional de Energia Nuclear, cuja divulgação está prevista para o dia 8, que, segundo dizem os americanos, concluiria que o programa nuclear iraniano teria finalidades militares.

Embora o Irã o negue e tenha se oferecido, com a mediação do Brasil e da Turquia, a manter fora do país as reservas de urânio enriquecido produzida suas centrífugas, se tiver mesmo propósitos militares não é diferente do que fizeram os países desenvolvidos e, ali na região, a Índia, o Paquistão e, sobretudo Israel, nenhum deles tendo sido vítima de sanções internacionais e muito menos ameaças de ataques.

Ao contrário, Israel testou ontem uma nova versão do seu míssil balístico Jericoh, com capacidade de transportar ogivas nucleares.

É curioso como todos se dispõe a gastar bilhões com guerras, mas não com o reequilíbrio da economia. Ou será que a guerra faz parte do bom funcionamento da economia?

De qualquer forma, os países emergentes devem aproveitar o momento “pires na mão” para dizer: com guerra, sem ajuda.

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PR fará pit stop no limbo até próxima eleição

16 de agosto de 2011 Deixe um comentário

Do blog do Fernando Rodrigues, em 16 de agosto:

“Essa decisão (que nem é unânime) do PR de sair da base de apoio ao governo Dilma Rousseff é um movimento bem pensado de oportunismo político. Faz parte do balé da fisiologia em Brasília.

O PR é uma sigla média que cresce à sombra das grandes. Não tem a menor pretensão nem chance de eleger em 2014 um presidente da República ou governadores de Estados com peso político.

Como o PR foi humilhado e perdeu cargos de relevância no governo Dilma, uma ala grande do partido ficou desassistida naquilo que é mais importante para certos políticos: cargos e verbas.

A partir de agora o roteiro está traçado. O PR fica numa espécie de limbo no Congresso, à espera do melhor momento para se posicionar. Durante votações de interesse do Planalto, muitos deputados e senadores dessa legenda vão negociar de maneira individual seus apoios.

Quando ficar mais próximo das definições para a eleição de 2014, o PR vai então observar qual candidato incorporará mais perspectiva de poder. Se Dilma, Lula ou outro do campo governista atual despontar com chance de vitória, o PR correrá para os braços do Planalto. E o mesmo valerá para o eventual candidato da oposição, seja ele Serra, Aécio, Alckmin ou outro.

Tudo considerado, o PR não está a passeio aqui em Brasília. Está a negócio.

Eles dirão que é um negócio político… mas é um negócio”.

Temos que concordar, o papel do PR, além de ser protagonista em escândalos, é mamar no governo. A atitude de agora é só para os desavisados pensarem que o PR é um partido sério.

A vez de Campinas

Texto de Daniela Costa:
Desconsiderando o aspecto geográfico, Campinas não se encaixa mais no conceito de uma cidade de interior. Apresenta todas as boas (e más características) de uma metrópole, contribuindo consideravelmente para a Economia do Estado e sendo reconhecida como um importante pólo tecnológico para o Brasil. Infelizemente, temos noticiado as falcatruas e a corrupção nas licitações da Prefeitura desta cidade e, mais uma vez, numa tentativa (esperamos, vã) de defesa, o líder da cidade resolve cometer uma incoerência atrás da outra. Elenco algumas aqui:

Dr. Hélio (PDT), prefeito de Campinas

–  O prezado Dr. Hélio Santos disse, em entrevista coletiva, que seus dois principais secretários “iriam pedir exoneração no dia de ontem”. Como ele saberia, se eles estão foragidos?

–  Que ele manteria a secretária, a senhora sua esposa, chefe de Gabinete “enquanto ela estiver protegida por habeas corpus preventivo”. Será que ele só deseja proteger a esposa ou quer mantê-la no cargo? Será que Campinas merece essa atitude com relação àquela que é mencionada como chefe do esquema pelo Ministério Público?
–  Dr. Hélio também afirmou que o delator Dr. Aquino sempre foi “homem de sua confiança” (parece meio Cangaço, né?) desde a infância, mas que “deixou de ser na vida adulta”. INVERDADE: o Dr. Aquino era de tanta confiança que foi presidente da Sanasa no período do esquema de corrupção. Deixou de ser de confiança agora, quando decidiu salvar a própria pele, trocando benefícios ao concordar jogar a  merda no ventilador…
–  Disse, como todo bom político-acusado faz, que a crise é resultante de um “golpe político” e que “foi eleito no primeiro turno” (Aff! Pior que isso é verdade!!). Ora, não se trata de nenhum golpe político. São golpes de outra natureza e que devem ser esclarecidos.
Erroneamente, o PT demonstra desejar salvar o vice-prefeito, Demétrio Villagra, excluindo-o do processo. Mas pelo jeito, nem o próprio Demétrio está querendo defesa, já que, ao saber do processo no exterior (em viagem de férias) quinta-feira passada “correu” para providenciar a sua volta que seria na terça, agora será amanhã, quinta… Acho que estamos com poucos voos entre Espanha e Brasil, ou está esperando uma passagem mais barata? Bom, talvez os R$ 60 mil pudessem ajudar…
Mas nem tudo é só palhaçada. Finalmente a Câmara Municipal resolveu se render aos apelos do óbvio e aprovar por unanimidade a Comissão Processante do prefeito. A Casa Legislativa já havia perdido uma primeira chance, talvez por falta de atenção ou pressão da mídia local, quando nada concluiu na CPI da Sanasa.
O Ministério Público inicia uma nova fiscalização agora para apurar aprovações imobiliárias irregulares nesta  gestão. Embora ainda no início, a fiscalização pode trazer novos fatos para a cidade de Campinas. As perguntas são: novos personagens vão aparecer? Ou serão os mesmos personagens sendo fiscalizados? Não perca por esperar!
A Câmara Municipal deve agora satisfação aos campineiros sobre a apuração das irregularidades e os eleitores devem  acompanhar detalhadamente a postura, o procedimento e os votos de cada vereador.
Uma última curiosidade: a esposa do agora prisioneiro Ricardo Candia é a atual gerente do Departamento de mentação Escolar da Ceasa (isso mesmo: de onde o vice-prefeito Demétrio já pediu o afastamento). Ela cuida da merenda escolar, enriquecida em alguns momentos, para o bem da saúde das crianças, com a carne cara de avestruz. Só espero que a carne de avestruz também não venha de Corumbá…
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