A complacência com os bandidos de toga

20 de dezembro de 2011 Deixe um comentário

Com liminar concedida pelo Supremo Tribunal Federal, que impede que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) investigue magistrados antes do pronunciamento das corregedorias, sendo que a corregedoria do CNJ não poderá instaurar investigações por conta própria, foi dado um tiro na credibilidade do Poder Judiciário brasileiro.

Os Ministros do STF, mais preocupados com seus colegas magistrados do que com a imagem do Poder Judiciário e com a ética nos Tribunais, estão mostrando até que ponto pode chegar o corporativismo dos nossos magistrados.

A Ministra Eliana Calmon advertiu que o judiciário estava infestado de bandidos de toga. Nenhuma novidade para a população que vive num país que o Executivo é tomado por quadrilhas e o Legislativo é conhecido por seus acordos nada transparentes, venda de emendas parlamentares e apoio em votações em troca de favorecimentos pessoais. Seria de se estranhar que o Judiciário se mantivesse limpo estando cercado de tanta lama.

O CNJ deve ser um órgão, alheio às corregedorias – conhecidas pela compreensão e paciência com que tratam os membros de suas classes – com o fim de fiscalizar com eficiência os membros do Judiciário para que desvios como os feitos por Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, não voltem a ocorrer.

Infelizmente parece que o corporativismo está falando mais alto que o interesse público. Espero que o STF reveja sua decisão e devolva ao CNJ poder para investigar com efetividade os magistrados que não seguem as regras éticas e morais que deveriam nortear os funcionalismo público.

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Alckmin veta projeto de lei que proíbe garupa em motos

19 de dezembro de 2011 Deixe um comentário

De G1, em 19 de dezembro de 2011:

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, disse nesta segunda-feira (19) que vetou o projeto de lei que proibia os motociclistas de levarem passageiros na garupa.

O projeto de lei, aprovado pela Assembleia Legislativa no dia 22 de novembro, determinava a proibição nos dias úteis da semana nas cidades paulistas com mais de 1 milhão de habitantes, como São Paulo e Guarulhos.

Durante entrega de 320 motos para o patrulhamento da polícia em São Paulo, o governador disse que não será desta forma que a criminalidade vai diminuir, e sim com o aumento do policiamento nas ruas.

Autor do projeto, o deputado Jooji Hato (PMDB) afirmou que os objetivos eram diminuir os acidentes e combater o crime. “A maior parte dos assaltos no trânsito é feita por garupas. O garupa com o visor escurecido ou espelhado não é identificado e, com a moto, foge em alta velocidade”, disse.

No início do mês, o governador disse que a população do estado que utiliza motos como meio de transporte não pode ser punida. “Nós temos uma preocupação enorme com a questão da segurança, mas precisamos ter cuidado para não punir o trabalhador e a população de menor renda, que utiliza como meio de transporte ou de trabalho as motocicletas”, afirmou, na ocasião.

O projeto de número 485 também tornava obrigatória a fixação do número da placa da moto no capacete e em coletes.

Propostas para plebiscitos e a esquiva do STF

14 de dezembro de 2011 Deixe um comentário

Em entrevista para a UOL, o Ministro do STF, Ricardo Lewandowski, sugeriu como temas para plebiscitos a legalização da maconha, o aborto de anencéfalos e sobre união homoafetiva. Sugeriu que, por serem temas com respostas simples, poderiam facilmente ser objeto de consulta já em 2012, juntamente com as eleições municipais.

Apesar da aparente boa vontade do Ministro, não acho que 2012, ou qualquer ano de disputa eleitoral, seja o momento correto para que ocorra qualquer plebiscito ou referendo. As campanhas eleitorais estarão nas ruas e candidatos mal intencionados – como José Serra durante a campanha de 2010 e Jânio Quadros em 1985 – poderão usar temas que devem ser discutidos seriamente como motes para desqualificar candidatos e desqualificarão qualquer discussão.

Outro fato importante é que um dos temas sugeridos por Lewandowski, o aborto de anencéfalo, não deveria ser objeto de discussão nem de projeto de lei. Feto anencéfalo não possui cérebro, portanto não possui vida. Ora, se a morte de uma pessoa, juridicamente, se dá com o fim da atividade encefálica, como é possível conceber que uma pessoa, feto ou qualquer outra coisa sem cérebro pode ter vida?

O aborto protege a vida. Poranto, se não há vida sem cérebro e um feto anencéfalo não conseguirá sobrevier após seu nascimento devido à falta deste, como é possível não ser possível o aborto de fetos anencéfalos?

Nessa questão o Ministro achou melhor, como membro do STF, se esquivar de qualquer decisão que a Igreja ou setores que possuem tanta capacidade de discernimento quanto um feto anencéfalo pudessem influenciar. Esqueceu-se que é desumano obrigar uma mulher a carregar durante nove meses um filho que sabe que vai morrer assim que sair do seu ventre.

Quanto à união homoafetiva, acredito que seria importante um plebiscito a respeito. Mas saliento, não em período eleitoral. É uma questão simples que acredito que a maior parte da sociedade brasileira já esteja madura o suficiente para opinar.

Afinal, a questão é muito simples, o brasileiro prefere tomar conta da vida dos outros ou prefere deixar que cada um cuide da sua? Os vizinhos fofoqueiros e partidários da moral, bons costumes e hipocrisia votarão contra, os partidários do “cada um cuida da sua vida” votarão a favor.

Claro que haverá discussão, por isso acho importante que essa consulta seja feita fora do período eleitoral, do contrário uma discussão séria descambará para palhaçada. Um candidato acusará o outro – no melhor estilo Bolsonaro – que querem ensinar as crianças a serem gays, com o intuito de ganhar votos dos conservadores. Assim, qualquer possibilidade de discussão qualificada e respeitosa irá por água abaixo. Sem contar nos possíveis ataques pela internet, “o candidato X é a favor do casamento gay porque quer que seu filho durma com ele”. Baixaria na certa.

Quanto à descriminalização da maconha eu tenho certeza que o Brasil não está preparado para um plebiscito nesse sentido. É necessário muito mais discussão para que a população realmente seja informada da realidade. É preciso que sejam discutidos os reais motivos da criminalização das drogas, quem está ganhando com a proibição e porque praticamente se despenalizou o porte para consumo próprio e endureceu-se a pena do traficante.

A questão das drogas é muito mais um assunto de como manter o atual sistema de corrupção no Brasil do que de polícia ou de saúde pública. Isso deve ser mostrado antes de qualquer plebiscito.

Outro problema serão os exageros que virão dos dois lados. Enquanto os partidários da proibição dirão – como já dizem – que caso haja a legalização a maconha será incluída na merenda escolar, os partidários da legalização dirão que a maconha é algo que faz bem, que não deveria ser considerada droga, e por aí vai.

Apesar de ser uma maneira do povo exercer a democracia direta, o plebiscito deve ser pensado com cautela, e convocado no momento propício. Do contrário a possibilidade de temas importantes serem tratados sem a devida seriedade é grande, e com isso perderíamos ótimas oportunidades para discutir e melhorar o país.

Um pedido a todos

De Blog do Madeira,

Caros, em primeiro lugar quero deixar claro que, neste post, fala o Guilherme Madeira Dezem, professor, mestre e doutorando pela USP. O funcionário público não se encontra neste texto.

Na vida, chega um momento em que precisamos tomar posições.

E não sei se sabem, mas há um forte risco de a Defensoria Pública de São Paulo passar por um enorme revés legislativo. Este revés significa um retrocesso na luta pelos Direitos Humanos e pelo acesso à justiça.

Então, peço que leiam o texto abaixo que é uma nota pública da Defensoria Pública e peço que, em concordando com o pleito, passe a frente e peça para seu deputado que vote contra o Projeto  de Lei.

É chegada a hora de tomar posição.

Por favor, se concorda, se apóia a Defensoria Pública, passe adiante esta nota pública. O Dia é Terça Feira!

NOTA PÚBLICA

06/12/2011

As entidades abaixo assinadas vêm a público manifestar-se veementemente contrárias ao projeto de lei complementar PLC 65/11, em trâmite na ALESP, que pretende transferir a gestão do FAJ – Fundo de Assistência Judiciária da Defensoria Pública para a Secretaria de Justiça e Cidadania do Governo de São Paulo.

A proposta, de iniciativa de parlamentar, além de ignorar o modelo público constitucional de assistência jurídica vigente no país, está repleta de outras inconstitucionalidades: trata-se de vício de iniciativa porque a competência de legislar sobre a Defensoria Pública é do governador do Estado; e material, por afrontar a autonomia institucional, garantida pela emenda constitucional 45, de 2004, e a previsão constitucional de que o Estado deve prestar orientação jurídica por meio da Defensoria Pública, e não pelo Executivo e suas Secretarias.

As entidades subscritas também manifestam alto grau de preocupação com as consequências desta transferência da gestão do FAJ junto à população carente do Estado, destinatária final dos serviços da Defensoria Pública. O FAJ representa hoje cerca de 90% da verba destinada à instituição pelo Executivo Estadual. Na prática, portanto, o modelo proposto pela OAB/SP vai simplesmente inviabilizar a prestação de assistência jurídica gratuita realizada no Estado tanto pela Defensoria quanto pelos advogados dativos.

A Constituição Federal do Brasil, há 23 anos, estabeleceu como dever do Estado garantir a defesa jurídica daqueles que não podem arcar com as custas de um advogado particular. Nos termos da Carta Magna, em seu artigo 5°, LXXIV: “O Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos”. E para efetivar esta prestação de serviço jurisdicional o artigo 134 da Constituição instituiu a Defensoria Pública. No entanto, contrariando a própria história da entidade, a atual diretoria da seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil persiste em caminhar no sentido oposto, colocando interesses corporativos à frente do modelo público de assistência jurídica vigente no país.

No Estado de São Paulo, a Defensoria Pública foi criada em 2006, após 18 anos do comando constitucional e após movimentação popular que envolveu mais de 400 entidades da sociedade civil organizada. Como a assistência jurídica gratuita é um dever público, nos locais onde ainda não há instalações da Defensoria, o Estado, por meio desta, paga advogados inscritos na OAB/SP para atuarem na defesa da população carente. Estes profissionais, que não prestaram concurso público, são remunerados a cada processo ou a cada audiência, por meio de receitas públicas advindas do FAJ, sem qualquer procedimento licitatório por força de lei, cuja constitucionalidade é questionada pela Procuradoria Geral da República e Defensoria Pública junto ao STF (ADIn 4163).

Este modelo, verificado nesta proporção apenas no Estado de São Paulo, constitui um paliativo, claramente inconstitucional, em transição, e altamente oneroso aos cofres públicos, ao bolso do cidadão contribuinte. Para que isso fique mais claro, imaginemos, por exemplo, se o número insuficiente de juízes e promotores no Estado de São Paulo recebesse a mesma tratativa. Para suprir tal lacuna, o Executivo contrataria bacharéis em Direito, sem concurso público, para atuarem como magistrados ou promotores de justiça.

Isso seria plausível? Como a resposta é não, por que para a instituição Defensoria Pública isso pode ser feito?

Enquanto o Estado não conta com o número ideal de defensores públicos para prestação de assistência jurídica gratuita, permanece a necessidade de contratação de advogados dativos. E como pelo ordenamento jurídico vigente cabe à Defensoria gerir o fundo do qual advém verbas para o pagamento de advogados conveniados, à instituição não resta outra alternativa senão zelar pela boa gestão do erário e honrar os deveres estipulados no convênio firmado com a Ordem dos Advogados.

Mas inconformada justamente com esta gestão do convênio realizado pela Defensoria e após ameaçar a interrupção dos serviços prestados pelos advogados dativos, as lideranças da advocacia paulista aprovaram no Colégio de Presidentes de Subseções, em outubro, proposta para esta transferência da gestão do convênio de Assistência Judicial. Em seguida, foi apresentado o projeto de lei 65/11 na Assembléia Legislativa do Estado com o mesmo objetivo.

Em resposta a uma nota divulgada pela OAB/SP, a administração da Defensoria Pública explica os porquês do não pagamento de pequena parcela de certidões aos advogados dativos. Durante processo de análise, “verificou-se que uma parte das certidões apresentava inconsistências e irregularidades, porque preenchidas sem todas as informações necessárias. Houve casos de pedidos de pagamento por situações não previstas nos termos do convênio. Havia também casos de certidões apresentadas em duplicidade”, diz a nota assinada no final de outubro.

Apesar da patente inconstitucionalidade deste projeto de lei, o deputado e advogado Jorge Caruso (PMDB) deu parecer favorável à iniciativa, causando grande perplexidade junto aos defensores públicos.

As entidades abaixo subscritas aguardam agora da Casa Legislativa paulista a manutenção do histórico compromisso com os princípios e regras constitucionais vigentes no país, votando pelo imediato arquivamento do PLC 65/11.

Assinam esta nota pública:

Associação Paulista de Defensores Públicos – APADEP

Associação Nacional de Defensores Públicos – ANADEP

Ouvidoria-Geral da Defensoria Pública do Estado de São Paulo

Movimento Nacional da População de Rua – MNPR

União dos Movimentos de Moradia de São Paulo – UMMSP

Pastoral Carcerária de São Paulo

Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC

Instituto Práxis de Direitos Humanos

Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM

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E Serra pode ser, novamente, o candidato do PSDB

8 de dezembro de 2011 Deixe um comentário

Nos últimos dias os jornais têm estampado notícias que demonstram que Serra sinaliza ter aceitado candidatar-se a prefeito da cidade de São Paulo.

Com isso, a tendência é que o PSD, partido de Kassab, apoie o PSDB nas eleições. Há também a possibilidade do DEM, que já disse que não entraria numa coligação da qual o PSD faça parte, volte atrás nas declarações e embarque na candidatura de Serra.

Independente da força que terá a aliança, do peso no nome de Serra e do tempo de TV e rádio, eu não acredito lançar Serra para prefeito seja uma boa alternativa para o PSDB.

Há tempos que os tucanos temem em mostrar um candidato novo. Por isso perderam Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, Gustavo Fruet no Paraná e Gabriel Chalita, na minha opinião o candidato com mais chances de vitória à prefeitura de São Paulo.

Temem lançar um candidato que não emplaque logo de cara e percam a chance de administrar a cidade. Esquecem-se que política deve ser pensada a longo prazo.

Com isso mais uma vez as chances de Serra, hoje um dinossauro da política tupiniquim, ser candidato aumentam. Esquecem-se da grande rejeição que o tucano enfrenta. Esquecem-se de que o povo paulista nunca o viu cumprindo um mandato inteiro – apesar do documento assinado quando foi candidato à prefeitura – e que é ele o principal responsável pelo crescimento de Kassab, que esmagou Alckmin nas eleições de 2008.

Serra é um candidato que traz discórdia consigo. Não será capaz de unir o PSDB em torno do seu nome. Para muitos tucanos o melhor cenário possível é Serra perder o pleito, fazendo assim o seu próprio funeral político. Um desses é Geraldo Alckmin, que creio estar alimentado a ideia de Serra ser prefeito para poder ver o meio aliado, meio rival enforcar-se na própria ambição. Com isso o PSDB paulista seria comandado apenas por seu grupo, ficaria livre para atuar da forma que bem entender em São Paulo.

Os motivos que fazem Serra ser um ótimo candidato para os adversários são simples. Tem forte rejeição, deixou o prefeitura nas mãos de Kassab, que mostrou ser o pior prefeito desde Celso Pitta, não está acostumado a cumprir promessas de campanha, e é um nome que todos sabem qual é o teto de sua votação.

Soma-se a isso o fato de que um de seus adversários será Gabriel Chalita, ex-secretário da Educação de São Paulo e ex-tucano. Saiu do PSDB porque não via espaço para que pudesse alcançar suas pretensões políticas. Depois de uma breve passagem pelo PSB foi para o PMDB, partido que está buscando espaço em São Paulo e com isso irá investir pesado para ganhar a capital.

Chalita buscará os mesmos votos que foram do PSDB outrora. Não duvido que consiga. É um nome novo, é simpático e terá muitos recursos financeiros para sua campanha. Soma-se que o apoio do DEM está cada vez mais próximo, uma vez que o partido se recusa a dividir a aliança com Kassab.

O PSDB, assim como fazem o PT e o PMDB, deveria investir em um nome novo, quem sabe um dos pré-candidatos. As chances de vitória podem parecer pequenas no momento, mas certamente com a propaganda eleitoral o candidato ficará mais conhecido e crescerá nas pesquisas. Resta saber se será o bastante para disputar o segundo turno. O momento é propício, os principais adversários nunca disputaram um cargo majoritário e também são desconhecidos do eleitorado.

Se o PSDB continuar com sua postura de só apostar em figuras há muito conhecidas perderá muitos Chalitas, Eduardos Paes e Fruets até aprender que eleição também se faz pensando a longo prazo.

Uma ideia (nada) genial – bolsa estupro

6 de dezembro de 2011 Deixe um comentário

Em tempo, os dois deputados que foram citados aqui sofreram processo no Conselho de Ética do PT e se filiaram ao PV.

Ao abrir meu e-mail hoje deparei-me com uma mensagem um pouco estranha. Dizia que o havia um projeto de lei criando o bolsa-estupro. Num primeiro momento achei que fosse mais uma daquelas baboseiras que circulam na internet, uns falando mal do bolsa-prisão, outros pedindo ajuda para o garoto que está sumido há quinze dias – sendo que vejo esse e-mail há uns 5 anos -, mas como não costumo receber esse tipo de coisa desse remetente resolvi ver do que se tratava.

Quando abri a mensagem vi que era uma notícia tirada do site do Estado de São Paulo, falando de um projeto de lei que pretende dar uma bolsa auxilio às mulheres que não abortarem quando forem estupradas, para assim poderem criar seus filhos e “serem felizes para sempre”.

Comecei a ler e cada vez me indignava mais com a falta de bom senso, respeito ao próximo e descaso com a dignidade da mulher que o deputado Henrique Afonso apresenta em seu execrável projeto de lei.

Em primeiro lugar ele deseja tornar proibido todo o tipo de estupro, mesmo aquele em que a gravidez é resultado de estupro ou que a mulher corra risco de vida. O projeto também proíbe o congelamento de embriões e as pesquisas com células-tronco. É um retrocesso, como já salientou o Conselho Nacional de Direitos da Mulher.

Mas focarei no ponto que me indigna. O deputado Henrique Afonso (PT-AC) defende que a mulher que for vítima de estupro seja obrigada a carregar, por pelo menos nove meses o fardo de uma gravidez indesejada, ocasionada por uma violência que poderá causar sérios transtornos psíquicos e neurológicos.

Como se não bastasse a violência que sofreu de um monstro, o deputado – que aparenta ser mostruosamente tão insensível como o estuprador – quer que a mulher carregue em sua barriga a lembraça do sofrimento e do crime que foi cometido contra ela.

Como se não bastasse, o sensível deputado ainda foi capaz de defender seu projeto de lei diz que “se, no futuro, a mulher se casa e tem outros filhos, o filho do estupro costuma ser o preferido. Tem uma explicação simples na psicologia feminina: as mães se apegam de modo especial aos filhos que lhes deram maior trabalho.”

Muito diferente do que as palavras românticas de Henrique Afonso é a vida real. Na prática a mãe vê o filho gerado pelo estupro como um estorvo, como uma lembrança do mal que sofreu. A criança será rejeitada já dentro do ventre materno e não deixará de ser até que a mãe morra.

Outro deputado, Luiz Bassuma diz que “A ciência está do nosso lado, pois a genética diz que a concepção acontece no primeiro minuto, a partir daí já é uma vida e vamos fazer de tudo para que ela seja respeitada.” Esquece-se o deputado que respeitar a vida é respeitar a dignidade da pessoa, no caso a dignidade da mulher.

Não entra na minha cabeça como alguém pode querer respeitar a vida se não respeita a dignidade das pessoas antes. Respeitar a vida para eles é simplesmente manter a pessoas respirando, o resto, os desdobramentos da vida, não deve ser levado em conta, afinal se ela respira e sente-se humilhada toda vez que dirige o olhar ou ouve a voz do próprio filho não importa, afinal está respirando.

Estou vendo o dia que a bancada evangélica fará um projeto de lei oferecendo bolsa-auxílio para as mulheres que foram agredidas pelos seus maridos. O que importa é manter a família unida, se a mulher tem que se submeter a toda sorte de abusos e agressões, uma ajuda financeira irá fazer-la esquecer que sua dignidade foi abandonada por esses que clamam que devemos amar o próximo, mas sequer conseguem entender que para amar qualquer pessoa é preciso amar a si mesmo, e que é impossível ter amor próprio quando não há dignidade.

Como já devem ter visto nos outros posts, não sou nada simpático à bancada evangélica. Prefiro mil Tiriricas e Malufs a um desses deputados que usurpam a religião para conseguir votos. Essa lei é um exemplo do motivo que me faz ter o sentimento que nutro por eles.

Esses deputados esquecem-se que não devem confundir direito com moral religiosa, religião com políticas públicas. Esquecem-se que não é porque eles acreditam em algo que os outros devem ser submetidos a esse pensamento. Esquecem-se sobretudo que o Estado é – ou melhor, deveria ser – laico. Que a religião não deve ser parâmetro para atuação legislativa.

O que estão fazendo esses deputados é colocar a religião à frente da pessoa, no caso à frente da mulher. Como se a mulher fosse só um objeto e ficasse satisfeita em ter um pouco de dinheiro caindo na sua conta todo mês para criar um filho que odeia, pois foi concebido contra sua vontade, por um covarde. Que como esses deputados, não a via como uma pessoa digna de ter sua vontade respeitada.

Me entristece também em ver o PT sendo jogado na vala comum dos partidos brasileiros. Um partido que sempre teve as liberdades individuais e o respeito ao ser humano como bandeira não deveria permitir que pessoas atrasadas como estas fizessem parte dos seus quadros.

Poderíamos esperar um projeto de lei como este de um PP, do Bolsonaro, do PR, do Valdemar da Costa Neto, e de outros partidos que sabemos que não tem nenhuma tradição com relação ao respeito ao ser humano. Mas não é crível que partidos que lutaram pelas liberdades individuais e pelo respeito às pessoas, como o PT, PSDB ou PMDB entre outros, permitam que seus parlamentares proponham projetos de lei que contrariam tudo pelo que lutaram outrora.

O PT, de forma correta, instaurou procedimento frente ao Conselho de Ética do partido contra os dois deputados, que foram ao PV, onde ao que parece suas idéias contra a dignidade da mulher são mais aceitas.

Esperamos que os outros deputados tenham mais humanidade e não deixem passar esse atentado contra as mulheres.

A Novela da Linha Amarela

25 de novembro de 2011 Deixe um comentário

Mais uma vez um problema na linha amarela do Metrô fez os trens pararem, como de costume, no horário de pico.

Falta de planejamento no transporte público e problemas de funcionamento lotam as estações

Com menos de seis meses de efetivo funcionamento a linha marela tem estado nos jornais não para mostrar como a chegada do metrô melhorou a vida dos moradores da região, porém mostrando mais a falta de preparo do consórcio que administra a linha.

Nem um ano de testes foi suficiente para corrigir os erros que porventura existiriam. Aliás, anunciam que os trens possuem tecnologia de ponta, mas parece que o Consórcio Via Quatro não é capaz de lidar com tamanha tecnologia.

Graças a nova linha, o metrô tem colecionado muito mais problemas do que as demais linhas, muito mais antigas.

Um ponto interessante é que um dos motivos que serviu de base para a parceria público privada é que o setor privado seria mais competente e eficiente do que o Estado para administrar e prestar serviços. Assim fez-se um consórcio e, caso  o governo não intervenha, parece que teremos que aguardar longas décadas até que o contrato chegue ao seu fim e a tão eficiente iniciativa privada deixe a administração da linha amarela, assim os problemas começarão a ser efetivamente resolvidos.

Como se não bastassem os atrasos na obra, os reiterados problemas nas estações e nos trens e o mal planejamento das estações, que dificulta o transito de pessoas nos horários de pico, o Estado – e indiretamente a população por meio de impostos – terá que arcar com o que o consórcio deixou de lucrar por conta dos atrasos nas obras e na entrega das estações.

Calma, deixa ver seu entendi. O consórcio entregou a linha amarela com atraso, as estações e trens apresentam problemas dia sim, dia não e ainda teremos que pagar o que eles deixaram de lucrar por conta dos atrasos da obra que eles estavam tocando?

É isso mesmo! Está bem entendido. Como sempre fazemos no Brasil, nós socializamos os prejuízos, os riscos e privatizamos os lucros.

Espero que lembremos da eficiência e boa vontade e a diferença de tratamento que os governadores de São Paulo tiveram com a população e com as grandes empresas na hora de votarem nas próximas eleições. Que os eleitores levem em consideração tanto os atrasos nas obras, os defeitos no funcionamento do metrô e a indenização paga à empresa que cuida da linha, quanto a praticidade e rapidez que a linha amarela proporciona – quando realmente funciona – para seus usuários.

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